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COLUNA
DOMINGOS DO BARULHO

 

José Roberto S. Neves

 

Era verão, tarde de domingo, domingo de carnaval. Naqueles (bons) tempos pré-axé ou pancadão, todos os caminhos do dial pareciam nos levar ao baticum dos sambas-enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Mas para os adeptos das guitarras distorcidas e baterias demolidoras, havia uma salvação, e ela se chamava “Domingo Rock”, programa pilotado pela dupla Burura/Bibinho entre 1983 e 1985, na extinta Gazeta FM.

- Hoje é domingo de carnaval, mas aqui o rock não pode parar – anunciou Bibinho, introduzindo mais uma edição do programa de rádio que pautou a trilha sonora da minha adolescência.

Lembro-me perfeitamente de que estava em Manguinhos, passando férias com a família, e o rádio representava para mim um amigo no qual podia confiar. Mais do que isso: era o único capaz de entender o desconforto juvenil diante do mundo que toma conta de quase todos os mortais nessa idade. A eterna vontade jovem de ser diferente, de transgredir, de contestar, ainda que ao estilo “rebeldes sem causa”, como bem definira o Ultraje a Rigor, ecoava na programação do “Domingo Rock”.

Foi lá que ouvi, pela primeira vez, por exemplo, bandas e cantores como Iron Maiden, Saxon, Ozzy Osbourne, Kiss, Accept, Scorpions, Quiet Riot, Judas Priest, Krokus, Status Quo, Sweet, Def Leppard, Whitesnake, AC/DC, Manowar, Dio, Motörhead, Joan Jett, Bon Jovi, Mötley Crue, Twisted Sister, Dokken, Queensryche e  Van Halen, entre outros tantos que reinaram nos anos 80.

Seja demoníaco, místico, progressivo ou farofa, o heavy metal desembarcava no Brasil em meio à badalação do Rock In Rio I, realizado em janeiro de 1985, e da expectativa por dias melhores diante dos primeiros suspiros da Nova República. O país entrava definitivamente na rota dos grandes shows internacionais, e nós, meros adolescentes, nos divertíamos com a forma como a sociedade enxergava aqueles sujeitos cabeludos trajando calças de couro pretas, braceletes, tachinhas e maquiagem pesada.

Sobre o Kiss, por exemplo, uma igreja de Minas Gerais chegou a distribuir panfletos dizendo ser o nome do grupo uma sigla de Knights in Satan’s Service (Cavaleiros a Serviço de Satã). Ozzy Osbourne ganhara notoriedade por ter mordido um morcego no palco; e os mais místicos perdiam tempo discutindo se a bruxa da capa do primeiro LP do Black Sabbath realmente se mexia.

Diante de tantas lendas e bizarrices, era natural que a imprensa não levasse a sério os metaleiros, como a tribo foi denominada pela TV Globo (rótulo que, diga-se de passagem, amplificou o ódio dos cabeludos à emissora – a maioria dos metaleiros (ops) considerava o termo pejorativo, e preferia ser chamada de headbanger, em mais uma ode aos estrangeirismos).

Mas, se ninguém nos entendia, o “Domingo Rock” era o nosso porto seguro. Imaginem o que representava para aquela garotada assistir, no intervalo do Jornal Nacional, um clipe do Scorpions, dentro de uma jaula, cantando “Rock You Like a Hurricane”? Ou ver o feioso vocalista do Accept, Udo Dirkschneider, gritando “Balls to the Wall” com a voz esganiçada e o corpo envolvido em uma roupinha colante ridícula? Pois eram assim as chamadas televisivas do “Domingo Rock”.

Isso sem falar nos “lançamentos” de discos de Menudo, Michael Jackson, New Kids on the Block e de outros grupos menos cotados, cujos LPs eram sumariamente destruídos no ar pela dupla Burura/Bibinho, com direito a áudio do vinil despedaçado, para delírio dos ouvintes.

O “Domingo Rock” entrou para a história, ainda, por ter apresentado aos capixabas o movimento musical que se desenhava em várias regiões do país. Começando no Rio de Janeiro, com os extintos Brylho e Sangue da Cidade e, logo depois, Blitz, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso. De São Paulo vieram Ira!, Titãs, Inocentes. Mas foi mesmo em Brasília que o rock tomou o poder e instaurou o seu domínio na indústria fonográfica, sob os acordes e letras de Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.

Nossa rotina semanal consistia em ouvir o “Domingo Rock”, pedir músicas por telefone, gravar as preferidas numa fitinha Basf ou TDK (e torcer para que o locutor não falasse no final da música, o que invariavelmente acontecia) e, na segunda-feira, ir à Discoteca do Golias caçar os bolachões das bandas tocadas no programa.

Foi assim que montei a discografia do Saxon e do Scorpions, e da santíssima trindade composta por Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath. E foi assim que conheci a primeira banda de heavy metal do ES: a Thor, cujo compacto simples incluindo “Rockrise” e “Thor” tinha lugar cativo no “Domingo Rock”. Um dado curioso: o disquinho foi lançado no programa antes mesmo de ficar pronto. Os integrantes da banda chegaram de ônibus de São Paulo, no domingo, e foram direto ao estúdio da rádio, com a fita rolo nas mãos. Lançamento mundial!

O sucesso do vocalista Fábio Boi & Cia foi tanto que o pessoal do Thor ganhou um programa de rádio na Tropical FM, o “Rock Festival”, também aos domingos, que contemplava vertentes agressivas como thrash metal, power metal, black metal, death metal. Ali, o bicho pegava. Os caras tocavam Slayer, Metallica, Exodus, Venom, Celtic Frost, Wasp, Mercyful Fate e outras tijoladas, com apresentação de Alth Metal e Ricardo Bacalhau, então empresários do Thor.

Um programa extremo desses numa rádio popular não podia dar certo, e não deu. Após algum período de frisson, saiu do ar. Mas a metaleirada só fazia crescer e, a essa altura, por volta de 1987, 1988, 1989, já havia eleito o Teatro Carmélia M. de Souza como o templo sagrado onde se apresentavam bandas como Witchhammer, Azul Limão, Madian, Outcry, Hell, Fênix, Blackfever (que mais tarde viraria o Siecrist).

Enquanto isso, o “Cidade do Rock”, da Cidade FM, brindava a juventude com os expoentes da geração dark, que fornecia tintas cinzentas aos já diluídos anos 80 por meio de suas letras melancólicas e visual gótico. Seus nomes: Joy Division, New Order, The Cure, Jesus and Mary Chain, Echo and the Bunnymen, The Mission.

O metal só recuperaria seu espaço no dial na virada dos anos 80 para os 90, através do “Ecstasy”, pilotado por Burura e Torino Marques na Capital FM, “descaradamente a sua cara”. Em Guarapari, o empresário Ricardo Conde imitou a fórmula da pioneira Fluminense FM (inclusive o rótulo de “maldita”) e deu perfil roqueiro à programação da emissora, culminando com o tosco “Noise”, apresentado pelo folclórico Batman, que, no início dos anos 90, comandou a Open Mind Association, congregação de headbangers destinada a produzir e a divulgar shows do gênero. A sede da Open Mind ficava no Centro de Vitória, onde o homem-morcego do rock capixaba vendia camisetas de bandas.

Àquela altura, a produção fonográfica local já havia crescido, a ponto de esses programas promoverem o lançamento de LPs do The Rain, Porrada e da coletânea “Noise Core” e, mais tarde, do CD “Hidden Melody”, do The Rain, banda da qual participei como baterista.

Com o fim da Capital FM, que deu lugar à insossa Jovem Pan FM, e a explosão de bandas como Chico Science e Nação Zumbi (tendência reverberada por aqui pelo Manimal e Pé do Lixo), pode-se afirmar que o ciclo metaleiro de Vitória deu lugar a uma nova ordem musical, embalada pelas letras em português, a mistura de ritmos, o olhar para os regionalismos e a verborragia do hip hop vomitando descontentamento contra as injustiças sociais do país.

A produção de CDs locais cresceu, e os grupos capixabas ganharam espaço exclusivo no dial com o “Rock por essas Bandas”, lançado na Universitária FM. O baterista Cid Travaglia, que acabara de voltar dos Estados Unidos, percebeu essa efervescência e a ela deu o nome de “Na Cara”, programa apresentado por ele na 94,9 FM, a supracitada Guarapari FM. Entre 1999 e 2003 – não por acaso o período mais fértil da música local, em termos de popularidade – a bandeira da música jovem foi carregada novamente pela dupla Burura/Bibinho, na Cidade FM, que lançou, entre outros programas, o “Território do Rock”, pilotado pelos guerreiros André Daher e Cacá Faé (hoje na Universitária FM).

Hoje é difícil imaginar o mundo sem Google e YouTube, e as rádios migram para a Internet em um caminho que parece não ter volta. Mas, para mim, ninguém jamais vai tirar o pioneirismo e o atrevimento daquelas barulhentas tardes do “Domingo Rock”.

Texto publicado originalmente no 24º volume da Coleção Escritos de Vitória, tema Rádios, da Prefeitura de Vitória.

José Roberto Santos Neves é editor do Caderno Dois de A GAZETA e ex-baterista das bandas Seven, Skelter, The Rain, Lucy e Big Bat Blues Band. É autor dos livros “Maysa” (2005) e “AMPB de Conversa em Conversa” (2007).

 

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